Os dados expostos ao longo desta caracterização, por núcleos residenciais, das famílias com as quais a CASFIG, EM tem vindo a trabalhar, confirmam a ideia de que a situação de pobreza em geral é um fenómeno multidimensional, exigindo, por isso, uma análise alargada a vários sectores.
Ficou igualmente claro que o grau de instrução e o rendimento formam, no seu conjunto, variáveis centrais a ter em consideração no estudo da população residente, quer no que diz respeito à sua caracterização, quer no que respeita à análise explicativa.
Na verdade, habilitações literárias insuficientes proporcionam trabalho desqualificado e este, por sua vez, conduz à precariedade salarial. Ora, parcos rendimentos traduzem-se em dificuldades no acesso aos bens e serviços que determinam níveis reduzidos de satisfação das necessidades fundamentais da população.
Refira-se que o estudo dos rendimentos e composição dos agregados familiares moradores nos Bairros Municipais de Arcela, Leão XIII e Urgeses, cujos dados haviam sido recolhidos através de inquirição directa às famílias, não traduzia, com rigor, a realidade destes Bairros.
Só muito recentemente, no decurso do processo de actualização de rendas iniciado em Outubro de 2002 – processo esse praticamente concluído - foi possível aferir do valor correcto dos rendimentos auferidos por estas famílias, o que não permitiu ainda, nesta data, apresentar as respectivas situações sócio-económicas devidamente caracterizadas.
No que diz respeito à população residente nos Empreendimentos Sociais mais recentes, verifica-se a existência de famílias particularmente vulneráveis a fenómenos de exclusão social que requerem, por isso, uma actuação global e integrada no sentido de efectivar uma integração social positiva e evitar a guetização e degradação destes conjuntos habitacionais.
Na verdade, uma fatia considerável dos agregados familiares residentes, com especial incidência nos realojados em Outubro de 2001, apresentam um quadro familiar potencializador de comportamentos desviantes, isto é, que colocam os seus membros em posição privilegiada para a efectivação de comportamentos disfuncionais.
A insalubridade das condições de habitabilidade, um dos motivos pelos quais estas famílias foram alvo de realojamento, encontra-se intimamente ligada a factores como o fraco nível de instrução, o desempenho de trabalhos de baixa qualificação e os parcos rendimentos.
Assim, indivíduos cuja história de vida se processa em condições como as mencionadas, são, sem dúvida, agentes potencializadores de comportamentos que os colocam em risco de exclusão, a saber:
Toxicodependência;
Alcoolismo;
Distúrbios mentais evidentes;
Limitação de informação / formação;
Violência doméstica;
Dificuldades de integração no mundo do trabalho;
Elevada taxa de desemprego;
Dificuldades de aprendizagem;
Insuficiente formação escolar;
Analfabetismo;
Problemas sociais diversos.
A diversidade dos problemas mencionados exige e justifica, pelo seu carácter multidimensional, uma equipa multidisciplinar, com técnicos especializados em diferentes áreas de intervenção, cuja conjugação do Saber-Fazer e Saber-Ser tem constituído um elemento fundamental para criar na população em geral, e em cada agregado em particular, uma vivência quotidiana de qualidade e sempre direccionada para a autonomia dos agentes sociais realojados, no que concerne à resolução dos seus problemas e à utilização dos recursos, quer individuais, quer colectivos.
Assim, uma vez que são muitos e diferentes os problemas das famílias residentes, são também múltiplas as áreas de intervenção, que são desenvolvidas com o apoio dos diversos parceiros através de um esquema de acção integrada em várias vertentes - saúde, educação, acção social propriamente dita e vida activa – procurando-se adequar as metodologias e dinâmicas de intervenção às características e aos problemas da população destinatária.
A mudança de atitudes e valores é gradualmente conseguida com concretização de projectos, empreendidos em parcerias institucionais, procurando, assim, efectivar uma intervenção integrada que dinamize iniciativas, “altere mentalidades” e desbloqueie barreiras ao desenvolvimento, com a finalidade de satisfazer necessidades sociais.
Deste modo, o acompanhamento às famílias residentes tem vindo a ser desenvolvido tendo em conta as seguintes vertentes e objectivos:
integração dos indivíduos nos empreendimentos e destes na cidade, com valorização dos espaços e dignificação dos contextos sociais;
sensibilização e formação da população;
estudo e acompanhamento dos agregados familiares;
dotar os residentes de competências que os auxiliem na adaptação às novas condições de vida e à adequada organização e apropriação dos espaços;
assegurar, aos agregados familiares socialmente deprimidos, a satisfação das necessidades mínimas e a progressiva inserção social e profissional;
garantir o cumprimento da regulamentação da utilização dos espaços comuns;
eliminar os factores de conflito entre vizinhos e colaborar na inclusão de indivíduos afectados por doença física ou mental, desestruturação familiar e violência doméstica;
colmatar lacunas ao nível da saúde, higiene, planeamento familiar, alimentação e economato;
promover acções mobilizadoras de atitudes de estima e conservação do espaço habitado, motivando os moradores para a correcta utilização dos fogos e áreas comuns;
promover a participação plena da cidadania de cada indivíduo;
combater a solidão e o isolamento, com especial incidência na população mais idosa;
promover a sociabilidade e o fortalecimento dos laços comunitários de relação entre a população do próprio empreendimento e entre esta e a freguesia;
reforço dos sentimentos de pertença e das capacidades individuais;
promover a consciencialização da importância do papel da família;
promover a cultura e o sucesso escolar.
promover os laços de solidariedade e vizinhança.
Pela exposição feita, torna-se claro que a tónica dominante do trabalho desenvolvido pela CASFIG, EM é a intervenção em várias frentes, uma vez que conferir a estas famílias uma habitação munida de infra-estruturas capazes de proporcionar uma qualidade de vida a que todos têm direito, é, por si só, manifestamente insuficiente.
Na verdade, para além da satisfação das necessidades mais evidentes, existem problemas de difícil formulação e resolução, nomeadamente os de natureza sociocultural e sócio-psicológica, que é imprescindível atender e considerar.
Os resultados obtidos até ao presente reforçam a convicção de ser este o caminho certo, e a inauguração da sede social da CASFIG, EM inscreve-se, justamente, nesta abordagem, ao pretender criar as melhores condições de atendimento aos moradores dos vários empreendimentos, com conforto, comodidade e, quando necessário, privacidade.
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